sexta-feira, 7 de março de 2008

A ALEGRIA NA TRISTEZA.


O título desse texto na verdade não é meu, e sim de um poema do uruguaio Mario Benedetti. No original, chama-se "Alegría de la tristeza" e está no livro "La vida ese paréntesis" que, até onde sei, permanece inédito no Brasil.

O poema diz que a gente pode entristecer-se por vários motivos ou por nenhum motivo aparente, a tristeza pode ser por nós mesmos ou pelas dores do mundo, pode advir de uma palavra ou de um gesto, mas que ela sempre aparece e devemos nos aprontar para recebê-la, porque existe uma alegria inesperada na tristeza, que vem do fato de ainda conseguirmos senti-la.

Pode parecer confuso mas é um alento. Olhe para o lado: estamos vivendo numa era em que pessoas matam em briga de trânsito, matam por um boné, matam para se divertir. Além disso, as pessoas estão sem dinheiro. Quem tem emprego, segura. Quem não tem, procura. Os que possuem um amor desconfiam até da própria sombra, já que há muita oferta de sexo no mercado. E a gente corre pra caramba, é escravo do relógio, não consegue mais ficar deitado numa rede, lendo um livro, ouvindo música. Há tanta coisa pra fazer que resta pouco tempo pra sentir.
Por isso, qualquer sentimento é bem-vindo, mesmo que não seja uma euforia, um gozo, um entusiasmo, mesmo que seja uma melancolia. Sentir é um verbo que se conjuga para dentro, ao contrário do fazer, que é conjugado pra fora.

Sentir alimenta, sentir ensina, sentir aquieta.

Fazer é muito barulhento.Sentir é um retiro, fazer é uma festa. O sentir não pode ser escutado, apenas auscultado. Sentir e fazer, ambos são necessários, mas só o fazer rende grana, contatos, diplomas, convites, aquisições. Até parece que sentir não serve para subir na vida.
Uma pessoa triste é evitada. Não cabe no mundo da propaganda dos cremes dentais, dos pagodes, dos carnavais. Tristeza parece praga, lepra, doença contagiosa, um estacionamento proibido. Ok, tristeza não faz realmente bem pra saúde, mas a introspecção é um recuo providencial, pois é quando silenciamos que melhor conversamos com nossos botões. E dessa conversa sai luz, lições, sinais, e a tristeza acaba saindo também, dando espaço para uma alegria nova e revitalizada. Triste é não sentir nada.

Texto de Martha Medeiros

sábado, 16 de fevereiro de 2008

♥ SAÚDE ♥ RITA LEE

Me cansei de lero-lero
Dá licença
Mas eu vou sair do sério
Quero mais saúde
Me cansei de escutar
Opiniões...

De como ter um mundo melhor
Mas ninguém sai de cima
Nesse chove-não-molha
Eu sei que agora
Eu vou é cuidar
Mais de mim!
Uh! Uh! Uh! Uh!
Uh! Uh! Uh! Uh!
Uh! Uh! Uh! Uh!
Uh! Uh! Uh! Uh!...

Como vai? Tudo bem!
Apesar, contudo
Todavia, mas, porém
As águas vão rolar
Não vou chorar
Se por acaso morrer
Do coração...

É sinal que amei demais
Mas enquanto estou viva
Cheia de graça
Talvez ainda faça
Um monte de gente feliz!
Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh!
Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh!
Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh!
Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh!...

sábado, 5 de janeiro de 2008

"Meu nome não é Johnny..."


“O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos (...)”


Marguerite Yourcenar
Do filme Meu nome não é Johnny.

Este foi o cartão de Natal enviado pela juíza Marilena Soares a João Guilherme Estrella em dezembro de 1996.
A história desse cara é impressionante.De garoto zona sul a traficante de drogas.Quando tudo poderia ter dado errado ele deu a volta por cima. Uma história de gente de verdade, que vive, sofre, se arrepende, que se supera e se transforma.
Gostei.

domingo, 30 de dezembro de 2007

Final de ano.


Final de ano é isso aí que se vê. Confraternizações, amigo oculto, churrascos com a família, shopping e mercados cheios.. etc. Pela sensação, mesmo ilusória de que algo acaba e começa outro, o clima é bom, é de festa. Na verdade tudo "novo de novo". Continuar é bom também, quando se continua, diferente, fazendo a mesma coisa. Estava na praia com minha filha ontem e comentávamos o clima desses dias, muita gente transitando, turistas por toda a parte, muita bebida, pra recepcionar o novo ano. E vale comemorar, festejar a continuidade. Mas nem tudo é só festa, parece que o mundo pára, parece que não existem doentes, idosos querendo dormir. Não, tem que fazer muito barulho, afinal o ano está terminando. Afff...

Todo serviço nessa época, para os mortais, é precário. Delegacia, emergência de hospital, tudo à meia boca. Portanto, comemoremos, mas prudência nunca é demais. É festa, mas a cidade não está preparada pra atender gente que justo na época de festa, resolveu ter uma dor, se machucar ou coisa parecida.

Ontem à noite, eu precisei ir à emergência de hospital. O médico, coitado, parecia o banana de pijama com aquela roupa.Isso foi um garotinho que estava à espera que comentou. Eu ouvi e ri concordando. E pior, estava com uma cara. Acho que ele não gosta desse pessoal que passa mal nesses dias. Atendimento frio, pena ele esquecer que lida com gente. Que um pouco de bom humor vai muito bem em qualquer situação. Eu acho pelo menos, vai ver estou errada.

Graças a Deus não precisei ficar em observação, essas coisas. Só um remédio e procurar um nefrologista logo. Mas só em 2008, a próxima quarta, a primeira do ano, porque é época de festa, todos precisam comemorar, inclusive os médicos.

Feliz 2008 pra todos!!!!!! Para os que estão na festa e os que por algum motivo, estão fora dela também. A festa é no coração!!!

"Eu criança"




Dia desses quando entrei na casa da minha mãe, estava lá em cima da cama dela umas fotos minhas de quando eu era criança. Não sei se estava preparada para me rever assim. Poxa, minha mãe podia ter me preparado para entrar, às vezes não é brincadeira se ver assim, sem um preparo rsrs.

Eu criança me chamou atenção, fui logo sentando e mexendo nas fotos. Minha mãe disse que estava arrumando umas coisas e aproveitou para me dar uma olhada. Foi bacana aquele momento, eu e minha mãe, na companhia da " eu criança". Conversamos sobre aqueles tempos, a vida, a semelhança do meu filho comigo criança. Essas conversas são boas... muito.
Voltei pra casa com aquela "eu criança" na cabeça.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

being boring - pet shop boys

Being Boring (tradução)
Pet Shop Boys
Composição: Tennant/Lowe

Estando Entediados

Deparei com umas fotos antigas escondidas
E convites para festa adolescentes
“vista-se de branco”, dizia um deles, com citações
Da esposa de alguém, um escritor famoso
Nos anos 20
Quando se é jovem, encontra-se inspiração
Em qualquer um que um dia tenha partido
E aberto uma porta que se fechava
Ela disse: “nunca nos sentimos entediados”

Pois nunca estávamos entediados
Tínhamos tempo demais para decidirmos a nosso favor
E nunca estávamos entediados
Vestíamos nosso melhor e brigávamos e pensamentos consertam situações
E nunca nos refreávamos ou nos preocupávamos que
O tempo chegaria ao fim

Quando fui embora, parti da estação
Com uma mochila e um pouco de trepidação
Alguém disse: \"se eu não fosse cuidadoso
Não sobraria nada para mim e nada com que me importar
Nos anos 70”
Mas me acomodei e olhando adiante
Meus sapatos estavam no ar e eu tinha me descolado
Eu tinha disparado através de uma porta que se fechava
Nunca me encontraria me sentindo entediado

Pois nunca estávamos entediados
Tínhamos tempo demais para decidirmos a nosso favor
E nunca estávamos entediados
Vestíamos nosso melhor e brigávamos e pensamentos consertam situações
E nunca nos refreávamos ou nos preocupávamos que
O tempo chegaria ao fim
Ficávamos sempre esperando que, ao olhar para trás
Pudéssemos sempre contar com um amigo

Agora eu sento junto a rostos diferentes
Em quartos alugados e lugares estrangeiros
Todas as pessoas que eu beijava
Algumas estão aqui e algumas estão ausentes
Nos anos 90
Nunca sonhei que eu chegaria a ser
A criatura que sempre pretendi ser
Mas eu pensava, apesar dos sonhos
Que você estaria sentado em algum lugar aqui comigo

Pois nunca estávamos entediados
Tínhamos tempo demais para decidirmos a nosso favor
E nunca estávamos entediados
Vestíamos nosso melhor e brigávamos e pensamentos consertam situações
E nunca nos refreávamos ou nos preocupávamos que
O tempo chegaria ao fim
Ficávamos sempre esperando que, ao olhar para trás
Pudéssemos sempre contar com um amigo

E nunca estávamos entediados
Nunca estávamos entediados
Pois nunca estávamos entediados
Nunca estávamos entediados


sexta-feira, 5 de outubro de 2007

"A pior vontade de viver" por Martha Medeiros.




"A pior vontade de viver "



"Ela é complexa, angustiante, subjetiva e intensa. Ela, a pior vontade de viver. A que não está disposta a negociar com a vontade dos outros.Todos são tão compreensivos, aceitam tão bem suas escolhas, torcem por tudo o que você faz, não é mesmo? Desde que você faça o que está no script. Que siga o que foi determinado no roteiro, aquele que foi escrito sabe-se lá por quem e homologado no instante mesmo em que você nasceu. Mas e quem não quiser seguir este script?

Clarice Lispector, que entendia de subversões emocionais, morreu há 30 anos e recebeu uma justa homenagem na última terça-feira, no Teatro Renascença, numa performance dirigida pelo incansável Luciano Alabarse e para o qual fui convidada, mas não pude participar. Em função deste evento, estive pensando muito em Clarice e lembrei de como ela descreveu, certa vez, o sentimento de um personagem: "Seu coração enchera-se com a pior vontade de viver". Ela é complexa, angustiante, subjetiva e intensa. Ela, a pior vontade de viver. A que não está disposta a negociar com a vontade dos outros. No entanto, esta que foi chamada de a "pior" vontade pode ser também uma vontade genuína e inocente. É a vontade da criança que ainda levamos dentro, entranhada. É o desejo de açúcar, de traquinagem, de fazer algo escondido, de quebrar algumas regras, de imitar os adultos. A "pior" vontade é curiosa, quer observar pelo buraco da fechadura e depois, mais ousadamente, abrir a porta e entrar no quarto proibido. A "pior" vontade é a de não se enraizar, não assinar contrato de exclusividade, não firmar compromisso, não render-se às vontades fixas, apenas às vontades momentâneas, porque as fixas correm o risco de deixar de serem vontade para se transformarem em vaidade - como se sabe, há sempre aqueles que se envaidecem da própria persistência. A "pior" vontade não quer ganhar medalha de honra ao mérito, não quer posar para fotografias, não quer completar bodas de ouro nem ser jubilada. A "pior" vontade não faz a menor questão de ser percebida, ela quer ser realizada. É quando você sabe que não deveria, mas vai. Sabe que não será fácil, mas enfrenta. Sabe que tomarão como agressão, mas arrisca. Anote: apenas sentem-se agredidos aqueles que te invejam. A vontade oficial, a vontade santinha, a que não causa incômodo é a outra, a aprovada pela sociedade, a que não leva em conta o que vai no seu íntimo, e sim a opinião pública. É a vontade que todos nós, de certa forma, temos de mostrar para os outros que somos felizes, sem saber que para conseguir isso é preciso, antes, ter a "pior" vontade, aquela que faz você descobrir que ser feliz é ter consciência do efêmero, é saber-se capaz de agarrar o instante, é lidar bem com o que não é definitivo - ou seja, tudo. É com esta "pior" vontade de viver que você atrai os outros, que seu magnetismo cresce, que seu rosto rejuvenesce e que você fica mais interessante.

É uma pena que nem todos tenham a sorte de deixar vir à tona esta que Clarice Lispector chamou de a pior vontade de viver, que, secretamente, é a melhor."


Martha Medeiros.